CORGAS - MALHADAL
quinta-feira, maio 29, 2008
segunda-feira, maio 19, 2008
CRÓNICAS DE UM BIBLIOTECÁRIO-AMBULANTE
Caminhante, as tuas pegadas
São o caminho e nada mais;
Caminhante não há caminho,
O caminho faz-se ao andar.
E ao olhar-se para atrás,
Vê-se a senda que jamais,
Se há-de voltar a pisar.
Caminhante não há caminho,
Somente sulcos no mar.
Heranças
A influência nas gentes que as usaram e se apropriaram deste serviço excelente e de excelência, ainda hoje permanece fresca nas memórias, bem como a influência que teve para a vida escolar, profissional e pessoal de cada habitual e fervoroso utilizador.
Após um período de alguma estagnação, em boa hora alguns municípios voltaram a dar alento e uma nova oportunidade a estes veículos de transporte não só de cultura e informação, mas que se transformaram em autênticos companheiros de passagens assíduas e rotineiras.
A Bibliomóvel nestes dois anos de mil curvas percorridas, mil histórias ouvidas e contadas e das mil e uma histórias por ouvir e contar, foi-se transformando num espaço único de partilha de emoções, sentimentos, velhos sonhos e eternos desejos.
A sua presença auxiliou e incentivou os seus utilizadores em busca de novas oportunidades na busca de informação formativa e no processo fabuloso e mágico de descoberta do livro e da leitura.
A herança deixada pelos “Carros-Biblioteca” da Fundação Calouste Gulbenkian é carregada de responsabilidade e de um peso simbólico que com orgulho carregamos e que todos os dias tentamos prosseguir e melhorar, não para fazer história, mas para tentar ser dignos de pertencer a uma história que começou à 50 anos atrás e que queremos e desejamos que o seu rasto de sabedoria e companhia prevaleça.
O Papalagui
quarta-feira, maio 07, 2008
terça-feira, abril 29, 2008
Crónicas de uma gota de água
Sempre em nome da missão de transportar cultura a uma terra e gentes que nada pedem para além daquilo que se sentem no seu direito de possuir e tantas vezes se sentem ludibriadas nas suas mais que justificadas expectativas.
Expectativas essas que vão muito além do trivial acesso eficaz e eficiente a cuidados de saúde, uma boa rede viária que permita deslocações de uma forma rápida e confortável mas que ultimamente apenas tem servido para esvaziar mais rapidamente esta terras de gente em busca de um justo sustento para a gestão familiar do dia-a-dia.
Por várias ocasiões interpelamo-nos sobre se realmente a Bibliomóvel faz ou não a diferença, no meio de toda esta incerteza em relação a um futuro que tem todas as condições para ser luminoso, assim se apercebam não só os “Senhores da Caneta”, com as suas politicas e acções mas igualmente as gentes desta terra que tanto tem para dar e que muitos teimam em menosprezar, mas que possui no seu intimo, por vezes tão longínquo, não a solução para todos os seus problemas, mas os recursos naturais, patrimoniais e sentimentais que podem e muito contribuir para ultrapassar estas contrariedades.
A sensação de gota de água num oceano que sentimos diariamente nas nossas andanças, leva-nos a persistir e insistir na importância da Bibliomóvel, pois uma gota de água pode fazer toda a diferença. Ao juntar-se a outras gotas de água transforma-se num ribeiro que irá dar a um rio que por sua vez irá desaguar a um oceano. Mesmo aqui o seu percurso continuará pois as marés e as correntes podem levar longe, muito longe esta gota de água.
Assim esperamos que esta gota de água, que orgulhosamente representamos possa um dia regressar, completando o seu ciclo e contribuindo para um crescimento que ser quer harmonioso, o que significa desenvolvimento não só para esta terra como para as gentes que a povoam.
O Papalagui
quarta-feira, abril 23, 2008


23 ABRIL
DIA MUNDIAL DO LIVRO
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projectos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil. Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro.
Sim, a leitura devia ser proibida. Ler pode tornar o homem perigosamente humano."


