sexta-feira, maio 25, 2007


Crónicas de um Bibliotecário-Ambulante
Gerações Num tempo em constante devir, em que os mais novos desistiram de ouvir e falar com os mais velhos e sábios, a Bibliomóvel tem sido um ponto de encontro de gerações.
Foi agradável assistir à reunião de três gerações representadas por Avó, Mãe e Filha numa animada conversa em que o tema era os livros e a leitura.
Á chegada da Bibliomóvel estão sentados num velho banco de pedra os “habituais” que versam sobre o tempo, meteorológico e cronológico, ainda pouco habituados a uma presença estranha, procuram no olhar e nos gestos sinais de confiança que a pouco e pouco se vai conquistando.
Sentadas num vão de escadas de uma casa abandonada pelas gentes e pelo tempo, Mãe e Filha falam sobre a “Vida” tema invariavelmente frequente nas conversas de todos os dias.
Um grupo de crianças aproxima-se e um pouco a medo vai entrando na Bibliomóvel, explorando os seus recursos, delineando estratégias de prazer em redor de livros, revistas e computadores.
Uma rapariga aproxima-se das duas senhoras sentadas, Mãe e Avó respectivamente, exibindo os livros que tão criteriosamente tinha escolhido. A partir desse momento a “Vida” deixa de ser tema de conversa e transforma-se numa improvisada sessão de “contadores de estórias”, em que os papéis se invertem. A Avó não sabe ler, mas diz: “ se os livros fossem tão bonitos como são agora…”. Na época o trabalho era muito e as bocas para alimentar também e a necessidade de ajudar levou-a a abandonar escola.
Mãe e Avó são agora duas crianças embevecidas suspensas na magia de uma história contada pelo olhar de uma criança. O título é apropriado “Avós” de Chema Heras e Rosa Osuna.
No grupo dos “habituais” as revistas de caça e pesca são avidamente folheadas e aos poucos a desconfiança inicial é quebrada, e as palavras vão fluindo…
No seio deste grupo um membro destaca-se pelo olhar melancólico com que passa pela revista de pesca. Por instantes regressa ao quotidiano duro de uma Campanha do Atum nos mares do Algarve, a que dedicou grande parte da sua vida mas da qual teve de desistir, vergado pelo peso da idade e pelas agruras da vida em alto mar, regressou a sua terra natal sozinho e da qual apenas guarda memórias frias e distantes.
O manancial de histórias de vida vai assim fluindo ao ritmo da ribeira que ao lado corre desmesuradamente e que sem barragem para a conter se irá perder.
O Papalagui