quarta-feira, fevereiro 25, 2009

CRÓNICAS DE UM BIBLIOTECÁRIO-AMBULANTE

Menino Sonhador

Era uma vez um menino sonhador, sonhador como são todos os meninos de 10 anos, que tinha uma relação de proximidade com os livros muito forte, fruto da grande insistência por parte dos seus progenitores, que desde muito cedo incentivaram essa proximidade e alimentaram essa cumplicidade.

Desde os livros de pano até às enciclopédias de História, Geografia e Ciências Naturais, passando pelas aventuras de Julio Verne, Enid Blyton, Rudyard Kipling e sem esquecer as BD da Disney, Tintin, Astérix, Lucky Luke, Turma da Mónica, Major Alvega, Mamselle X, ENE3 e afins… eram presentes assíduos em aniversários e períodos natalícios.

Esse menino, quando acabou a 4ª classe, recebeu do seu professor uma prenda, que apesar de não lhe ser estranha (livro), levantou alguma estranheza e falta de compreensão em relação ao seu enredo.

Resumindo o livro, este relatava as aventuras e perplexidades de um chefe índio de uma ilha dos Mares do Sul trazido por uns missionários para um qualquer país ocidental, este confronto com algumas incongruências da nossa vivência ocidental confundiu e de que maneira, a jovem e sonhadora mente desse menino.

Havia outra importante personagem, essencial nesta vivência e convivência com os livros, era o livreiro responsável pela livraria que existia a meio da avenida, onde os seus progenitores possuíam um pequeno comércio dedicado a outras delícias, estas de cariz mais gastronómico.

Manhãs e tardes sem conta, sentado nos degraus da sala principal, ou no chão em frente as prateleiras da BD a folhear, cheirar e ler álbuns inteiros, sem a obrigação de adquirir nenhum (embora muitos deles tenham ido parar a alguma ou outra lista de presentes). Havia ocasiões em que as portas da livraria se fechavam (para um café e pastel de nata) mas o menino, esse, ficava com o beneplácito do livreiro, qual guardião de um templo vazio de gente, mas repleto de personagens e mil e uma aventuras, que transformavam o aparente silêncio de uma loja vazia numa contínua algazarra de guerras, batalhas e duelos ao pôr do sol.

Passado um par de anos, vieram as revoluções do universo ZX Spectrum 48K (128K), a NBA, o Benfica, os rallyes, a Formula 1, as miúdas do pátio de basket e do pátio de voley, as diferenças entre “surfistas” e os “metálicos” que eram avidamente discutidas e escalpelizadas nos intervalos (e durante as aulas!) do Liceu.

Nos trajectos diários a caminho do Liceu, num atalho tantas vezes percorrido, havia uma imagem longínqua no estaleiro municipal que se destacava, um veículo estranhíssimo com formas bizarras e pouco aerodinâmicas, captava atenção desse menino agora com 13 anos.

Certo dia essa imagem longínqua, passou a estar ali a mão de semear, e todos os dias o menino se abeirava dessa aberração automobilística com um olhar curioso e sonhador, igual ao de todos os meninos de 13 anos, com o qual explorava o seu interior em busca de sentido e missão para tão bizarro veiculo.

Ao vislumbrar que o interior desse veículo era forrado de cima a baixo e dos lados de prateleiras e livros, logo imaginou a missão para qual estava moldada aquela aberração com quatro rodas, a que chamavam Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.Como todos os meninos de 13 anos, também este imaginava onde e o que estaria a fazer dali a uns anos.

Por mais do que uma vez lembrou-se que como seria interessante e curioso andar com um veículo semelhante, a calcorrear terras e gentes diferentes todos os dias, transportando livros para observar, tocar, cheirar, ouvir e ler…

O Papalagui