sexta-feira, novembro 26, 2010


CRÓNICAS DE UM BIBLIOTECÁRIO-AMBULANTE

Maria de Jesus

A época de “garimpo do ouro liquido” leva invariavelmente por um lado ao esvaziamento das aldeias e por outro ao regresso dos filhos da terra espartilhados um pouco por todo lado deste país e arredores. Este retorno em busca de um tesouro líquido traz um novo alento, embora temporário a estas terras e gentes.

As andanças da Bibliomóvel também sentem obviamente estas alterações demográficas com a falta dos seus habituais visitantes/utilizadores/Amigos, falta essa que vai sendo mitigada pelos cumprimentos efusivos recebidos ao longo dos caminhos, pelos “garimpeiros do ouro liquido”, prontamente respondidos pelo toque estridente da buzina.

Á partida para mais uma jornada, que se adivinhava, porventura mais vazia que o habitual a Bibliomóvel e Bibliotecário-Ambulante rolavam para a saída da primeira paragem do dia, percorrendo ruas estreitas e sinuosas, tentando evitar a todo o custo encontros imediatos com as paredes que parecia que aproximavam-se cada vez mais e mais do chassis da Bibliomóvel.

Esse carrossel foi abruptamente interrompido pelo surgimento de uma “garimpeira” (vestida a rigor) de um quintal, que ao aperceber-se da minha passagem procurou, através de sinais com os braços chamar a minha atenção para que eu parasse. Parei!

-“Olá boas tardes!

-Boas tardes, como está!?

- Fui confirmar se era mesmo você ou uma carrinha de vendedores, queria falar consigo, por causa de uma tia minha que gosta muito de ler…

- Vamos lá então!

- O senhor vem cá a quanto tempo!?

- Há cerca de 4 anos!

- 4 Anos!!!!!!! Que pena a minha tia não sabia e como tem dificuldades em andar…

-Mas se for preciso, eu vou até casa dela.

- Ela mora mesmo ali, vou chamá-la!

Duma pequena porta saiu então uma senhora, amparada por um par de muletas, com nítidas dificuldades de locomoção. Com uma ajuda extra conseguiu entrar para dentro da Bibliomóvel e começou a perscrutar o seu interior em busca de preciosidades, preciosidades em forma de livros.

Durante o processo burocrático de preenchimento da ficha para o cartão de leitora, perguntei-lhe o nome.

-Como se chama!?

-Simplesmente e apenas Maria de Jesus!

o papalagui