segunda-feira, outubro 27, 2014

domicílio provisório


crónicas de um bibliotecário-ambulante

Domicílio provisório

Uma tarde fria e chuvosa de um qualquer Inverno nas andanças da Bibliomóvel de Proença-a-Nova. Primeira paragem do dia. Um forno comunitário, abrigado num telheiro serve de ponto de encontro, parque de estacionamento e confessionário público.
Um carro afrouxa, passa, abranda e trava, segue… abranda e detêm-se! Uma figura sai e vem ao nosso encontro. Pergunta pela finalidade da nossa presença. Confirmadas as suspeitas pergunta pelas normas de funcionamento e aponta para outra figura que a custo tenta sair do carro.
Vou até lá, apresentações feitas, encontro marcado para daqui a 15 dias no deu domicilio. Primeiro empréstimo de um volumoso romance que renitente aceita com medo de não o acabar a tempo do meu regresso.
Os primeiros de muitos quinze dias passados, lá estou novamente, agora diante da sua porta. Buzino, bato a porta… nada!!! Passados alguns largos minutos, já dentro da Bibliomóvel vejo uma figura (era D.D.) a emergir de sua casa. Regresso!
Este primeiro contacto iria repetir-se por mais alguns Verões, Primaveras, Outonos e Invernos. As suas conversas lúcidas eram invariavelmente entrecortadas com lamentos pela sua saúde. Moléstias diversas, para as quais raramente tinha consolo nas inúmeras visitam a médicos generalistas, especialistas. Incontáveis deslocações a centros de saúde e hospitais. Baterias de exames intermináveis e nada…
Os seus dias passavam como folhas de uma bula medicamentosa, encaixada e muitas vezes solitária na sua embalagem. Uma senhora vinha de manhã, preparava as refeições, a roupa e depois ia embora.
As vizinhas eram companhia efémera. Uma delas, uma resistente carpida em anos de trabalho duro estranhava a ausência de saúde e a excessiva preocupação com a mesma. D.D olhava com inveja para a fortaleza sanitária da vizinha e arriscava a tratar dos seus canteiros e pequena horta. Sem grande sucesso. Caia muitas vezes de cama e ali permanecia.
Pedia-me livros, pequenos que a vista não dava mais. Insistia em ler e lia em dois dias o livro que ficava para quinze. Perguntava que se podia deixar mais. Recusava!
Hoje como sempre estacionei a sua porta. Uma vizinha deu pela minha presença e avisou-me:
- Olhe hoje não está aí ninguém!!!!
Pensei: nova visita ao hospital!
- A D.D. faleceu!! Passou mal o fim de semana e esta manhã não abria a porta, partimos o vidro, entrámos e estava na casa de banho. Veio o INEM. Já nada se podia fazer.
Oito anos de estradas, terras e gentes e já vi partir muita gente (demasiada!) a quem já não posso dizer mais: “até daqui a quinze dias, fique por cá tudo bem!”.