sexta-feira, junho 26, 2015

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crónicas de um bibliotecário-ambulante

Houve um dia em que os corredores, ladeados de prateleiras e quatro paredes que respiravam Biblioteca, foram substituídos pelas curvas do asfalto e os limites arquitectónicas suplantados apenas pelas linhas do horizonte.
Houve um dia em que a insegurança e o receio de falhar nunca saíram das minhas sensações, mas transformaram-se numa vontade de fazer sempre, sempre o melhor possível, independentemente das condições.
Houve um dia em que troquei os simples, amistosos mas quase sempre anónimos utilizadores, por Amigos não de sempre mas para sempre. Amizade construída nos bancos e nas pedras da calçada, no interior das suas casas, no abrigo das suas adegas selada a copos de vinho, pão, presunto, queijo, peixe do rio frito e azeitonas, nas paragens de autocarro ao sabor das inclemências meteorológicas, mas sempre presentes.
Houve um dia em senti o imenso poder de transformação que uma Biblioteca que se move, pode dar a vida de uma pessoa. Os nossos recursos podem ser alavancas e oásis na vida de alguém que quis ser mais e quer ser melhor.
Houve dias em que ganhei reconhecimento.
Houve dias em que perdi conhecimentos e conhecidos.
Houve dias em que faltou-me o chão, pela fatídica e sempre esperada notícia, embora sempre inesperada e inexplicável morte de alguém, cuja voz escutada, presença sentida e saberes recolhidos me habituei a ter sempre no local habitual, na hora quase sempre certa.
Houve dias que conheci do outro lado do Grande Lago e da Raya Imaginaria irmãos de estrada com as mesmas histórias e sensações que naqueles momentos…nos recordam que não estamos sozinhos.
Houve dias que nas estradas e nas auto-estradas das redes globais encontrei desconhecidos, que se tornaram Amigos que atestam o nosso depósito de combustível social e afectivo.
Houve dias em que senti que era um miúdo com um brinquedo grande nas mãos!
Houve dias em que senti o peso da responsabilidade do enorme legado deixado por outros que tal como eles (eu e a Bibliomóvel de Proença-a-Nova) percorreram as estradas, terras e gentes deste planeta a fazerem acontecer Biblioteca Itinerante!
Pode haver dias e dias mas hoje 26 de Junho de 2015 faz 9 anos que sentei-me ao volante da “carrinha dos livros”. É um dia como outro qualquer? Sim, pode ser, mas nas andanças da Bibliomóvel de Proença-a-Nova nunca se sabe… tudo pode acontecer, mais não seja acontecer Biblioteca Pública sobre rodas, o que por si só já é suficiente para ser um grande dia. Há dias assim!