quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Anfitrião/Guardião que partiu…


CRÓNICAS DE UM BIBLIOTECÁRIO-AMBULANTE

Anfitrião/Guardião que partiu…
Os primeiros quilómetros percorridos, em 2006 ao volante da Bibliomóvel eram de reconhecimento das geografias funcionais, as estradas, as terras, os buracos, as curvas. Serviram também para descobrir e conhecer melhor as geografias emocionais e sentimentais, pessoais e individuais daqueles que iriam fazer e fazem ainda hoje, parte integrante das andanças da Bibliomóvel de Proença-a-Nova.
Aquele lugar, apenas de passagem quinzenal era passado a velocidade moderada, quer pela proximidade das casas, quer pela sinuosidade da estrada. Sensivelmente a meio do lugar, um pequeno largo, despido, encaixado entre as traseiras e as laterais de duas casas, com dois bancos de cimento, pouco confortáveis mas que o engenho humano transformava em poltronas reais, com recurso a pequenas pranchas de cortiça.
Naquela tarde dois vultos surgiam ao fundo da estrada, sentados e curvados. Cada vez mais perto, abrandei a marcha e estaquei mesmo a sua beira. Os olhares desconfiados, uma breve apresentação da pessoa e do projecto, uma promessa de regresso, um olhar clinico de avaliação e vigilância e uma despedida seca. Voltei passados quinze dias!
Apenas um dos dois estava, um velho caçador de mil e uma histórias, não sabia ler mas as folhas e as imagens das lebres, coelhos, perdizes e javalis hipnotizava-o e fazia desenrolar as “estórias” e memórias da “sua cadela” que trazia coelhos e lebres que apanhava com a boca, sem disparos e que alguém por inveja: - “espataram-lhe com um balázio no lombo!” – “era eu quem metia um balázio no fdp que matou a minha cadela, era eu.”. Todo este desenrolar de palavras e momentos era acompanhado pela maestria em enrolar tabaco, quase só com uma mão, uma onça de tabaco, folhas de papel e uma língua, fazia pequenos cigarros, fumados até ao fim e colados com cuspo, na borda do balcão de cimento. Voltei passados quinze dias!
Uma pequena multidão aguardava, ocupando o espaço vital disponível, alguém tinha avisado. Tinha sido o Anfitrião/Guardião.
A passagem dos quinze dias iam sucedendo-se, e o largo ora ia enchendo, ora tinha meia ocupação, ora apenas restava um o Anfitrião/Guardião a quem muitas vezes se juntava a sua esposa, na demanda dos riscos, linhas e sabores das revistas. Um verão passou e a vindima chegou. Um convite imediato para assistir a pisa de substração do néctar precioso, a portas meias com o largo, estava a antiga taberna transformada agora em adega de produção, armazém e degustação do “produto puro sem mistelas algumas!”.
Passavam os anos e passavam os quinze dias, alguns daqueles que preenchiam os bancos iam desaparecendo, pela ordem natural da vida mas o Anfitrião/Guardião estava sempre lá! Quando não estava, aparecia no caminho vindo da sua preciosa vinha, que mostrava com orgulho de obra bem-feita. Fomos conhecendo um pouco mais de cada um, fomos descobrindo cada vez mais e partilhando outro tanto.
O seu passado de polícia na “Dita mai Dura”, quase toda passada na zona do Bairro Alto, era sempre fonte inesgotável de momentos hilariantes e dramáticos, que ora envolviam as belezas estonteantes das coristas do Parque Mayer, as vozes das fadistas mais lindas ora metiam os “queques da linha armados ao pingarelho” sobre os quais metia tudo na linha, apenas com o assomar do cacete. “Outros tempos a mesma vontade” costumava dizer!
O orgulho mal disfarçado com que falava dos filhos e dos netos, era outro traço que dominavam as nossas conversas, a sós ali dentro da sua adega portas meias com o largo, agora cada vez mais vazio. A sua esposa aparecia e trazia nas mãos as revistas que tinha levado quinze dias antes e pedia para ver outras bonitas.
Os maus bocados passados nas rondas não lhe tiraram o sono, mas se havia qualquer coisa que o tirava do sério, eram os políticos de agora e TODOS os que ousavam meter o bedelho no Santuário da Nossa Senhora da Saúde, erguido na sua rua, com o esforço de todos os habitantes.
No final do ano passado, a notícia do seu aparecimento inanimado em casa, não augurava nada de bom. Uma grave lesão cerebral fechou-o permanentemente no mundo hospitalar, donde de tanto em tanto vinham notícias de momentânea esperança ou de resignação face ao seu estado.
Perto do largo habitual, sinais de luzes e buzinadelas pedem para abrandar...a frase sempre igual, sempre inesperada (ou nem tanto!), que martela e martela definitivamente: " então já sabe quem morreu!?!?!"
acabou!
O Anfitrião/Guardião partiu…

Descanse em paz Ti Manel Janeiro.