segunda-feira, novembro 04, 2013

fronteira imaginária


crónicas de um bibliotecário-ambulante

fronteira imaginária

Portugal e Espanha partilham fronteiras desde 1143, data em que os seus destinos se separaram pela primeira vez. Desde então, que uma relação fraternal ambígua, que alterna entre um ódio ancestral e uma indiferença latente, se tornou a sua imagem identitária.
Nas zonas de fronteira esses sentimentos são esbatidos e a cooperação é afectiva e efectiva entre os dois lados da raia diplomática que os separa geograficamente.
Talvez por habitar perto da fronteira sempre mantive contactos estreitos com o outro lado. Assim, o conceito de cooperação transfronteiriça não seja de todo estranho, mas antes natural e lógico.
Em Junho de 2006,quando a Bibliomóvel de Proença-a-Nova saiu para a estrada senti de imediato,fruto da inexistência de documentação sobre as bibliotecas itinerantes(apesar do seu passado glorioso!) a necessidade de procurar informação noutras paragens. Assim aconteceu! Os caminhos cruzaram-se e os viandantes também.
Em 2007, surge o primeiro contacto com a ACLEBIM (Associação Espanhola de Bibliotecas Móveis). Uma busca na rede global sobre bibliotecas itinerantes e estava feita a apresentação. Desde logo, houve a percepção que do outro lado havia gente que partilhava histórias, desafios, sonhos, anseios e pesadelos.
A ligação virtual estava feita e foi-se estreitando ao longo desse ano, sempre num registo de partilha de informações e conhecimentos adquiridos.
No final de 2007, após uma longa viagem, dá-se o primeiro encontro cara-a-cara com a realidade espanhola das bibliotecas móveis.
Chegado o convite para participar no 3º Congreso Nacional, rumámos a Guadalajara onde, pela primeira vez, pude observar e comprovar as boas práticas, os projectos, a ilusão e a vontade que outros colegas de arte e de profissão, colocavam em prática naquilo que faziam, nos seus quotidianos de estradas, terras e gentes, transportando e levando a Biblioteca.
Após este primeiro contacto, um pacto de cooperação (informal) foi assinado e, desde então, tem sido alargado e fortalecido com a minha participação e com o apelo à participação activa de outros colegas portugueses no sentido de , quem sabe, transportar para o nosso país as boas práticas da Associação e dos seus associados itinerantes.
De dois em dois anos, a família reúne-se em território espanhol e de dois em dois anos tenho rumado ao seu encontro, escutando e observando outros projectos, vindos um pouco de todo o mundo, ao longo destas quatro edições.
Em 2008, a ACLEBIM destacou o nosso serviço na sua página de internet, apresentando-o na categoria de “Biblioteca Móvel do Mês”, facto que marcou em definitivo a entrada nesta enorme família ibérica de bibliotecas móveis.
Em 2009, no Congresso de León, tive a oportunidade de apresentar o meu blogue fotográfico: http://opapalagui.blogspot.pt/ e fui agraciado com um dos prémios ACLEBIM (categoria Pessoas) que se destinam a premiar pessoas e projetos que se tenham destacado no panorama das bibliotecas móveis.
Na quinta edição do Congresso (Alcala de Henares - 2011) chegou finalmente a vez de apresentar as andanças com a Bibiomóvel por estradas, terras e gentes de Proença-a-Nova.
Por fim, na sexta edição do Congresso (Burgos-2013) dedicada aos novos desafios e serviços prestados pelas bibliotecas móveis, o nosso projecto de recuperação, preservação e divulgação do património imaterial da nossa comunidade “Ecos de Proença, foi apresentado a todos os nossos colegas.
Assim tem sido esta parceria de vontades, ilusões, desafios de fazer acontecer e de criar oportunidades de melhorar aquilo que queremos que sejam as bibliotecas do séc.21.
As bibliotecas itinerantes não são antepassados jurássicos das bibliotecas, mas sim pontas de lança na nossa modernização. Onde a liberdade de acesso à informação e conhecimento, a promoção do livro e da leitura, e a disponibilização de serviços úteis às comunidades que servimos, são a prova que resistimos e não desistimos de afirmar a nossa existência.
As oportunidades de fazer crescer a nossa identidade funcional são infinitas, vivemos tempos de rápidas transformações, nos formatos, suportes e conteúdos. A nossa identidade sempre assentou na mobilidade, proximidade e cumplicidade e com ela estamos mais que preparados para a operacionalização destas novas tecnologias de disponibilização de conteúdos (e-books, e-readers, qrcodes, mobilephone applications).
Somos Bibliotecas e não importa onde executamos a nossa missão. O importante é executá-la sempre com a responsabilidade da nossa ancestral missão.