sexta-feira, maio 22, 2015

avós que nunca tive


crónicas de um bibliotecário-ambulante

avós que nunca tive
No início foi a incerteza, nunca tinha feito nada igual. Ler para pessoas já era um desafio assustador, ler para pessoas com idades para lá (muito para lá) do equador da vida parecia um repto inalcançável.
As andanças da Bibliomóvel já deambulavam pelas estradas, terras e gentes de Proença-a-Nova, quando fui desafiado a visitar um Centro de Dia para ir ler/contar histórias. Aceitei! Cheio de dúvidas, mas aceitei.
Primeiro dia. As pernas tremiam, a voz emperrava, com o olhar procurava as reações de quem escutava ou simplesmente ali estava. As gargalhadas eram sinal de aprovação e da minha parte constituíam o selar de uma relação que apesar de começar apenas naquele dia, jamais será esquecida.
Passados quase 9 anos a Bibliomóvel continua a estrada e o bibliotecário-ambulante continua semanalmente a visitar aquele Centro de Dia. Nessas passagens fui ganhando a confiança e a amizade com todas as aquelas avós que souberam receber e acolher este que vos escreve de uma forma gentil e carinhosa. Nunca tive o prazer e o privilégio de conviver com as minhas avós, por isso todo o contacto que tenho com todas essas avós adoptivas é absorvido até a exaustão.
Têm sido muitas, aquelas avós emprestadas as quais tenho rendido homenagem pela sua última partida neste jogo da Vida. Hoje despeço-me de uma em particular. A Ti Rosa da Ferraria acolheu-me no seu regaço, a sua alegria contagiante, a sua eterna rabugice e critica sobre a modernidade e claro a sua fabulosa capacidade criativa de jogar com as palavras.
A falta de conhecimento das regras não era impeditivo para jogar esse jogo de emparelhamento das palavras sentidas e que as debitava com uma naturalidade e fluidez impressionante. A cada visita uma mão cheia de quadras trazidas. A cada visita novos conhecimentos aprendidos e recolhidos, base e inspiração daquilo que mais tarde seriam os Ecos de Proença. A cada visita o reforçar daqueles laços que mesmo na fraqueza e no desespero da mudança para um espaço de acolhimento diferente, não enfraqueceram.
As palavras que dentro de si juntava e que a mim ( e não só) dedicava ficam como uma eterna recordação de uma avó que nunca tive.
Adeus Ti Rosa!

 Lá está o Sr Nuno
Carregadinho de carinhos
Abala e vai para o lar
Visitar os velhinhos.

Para visitar os velhinhos
Leva Amor no coração
A quando chega ao lar
Todos lhe apertam a mão

Também cá vem o Sr. Nuno
Bem disposto a trabalhar
Carregadinho de carinho
E de sorrisos para nos dar

Já chegou o sr.Nuno
Gostamos muito de o ver
Quando ele vem para o pé de nós
Ele vem sempre a correr!

Ele vem sempre a correr
Nós temos –lhe muito Amor
Deus queira que a sua vida
Se transforme numa flor.

Já chegou o Sr. Nuno
Vem sempre por bom caminho
Nós queremos que ele cá venha
Até que ele seja muito velhinho.